CLAUDE CAHUN POR TAMARA ALVES, 2022

ESTADO DA ARTE

Se estórias que explorem o desejo feminino, escritas a partir do ponto de vista de uma mulher, são raras na nossa cultura; estórias à volta do desejo entre mulheres, escritas a partir do olhar feminino, são imperceptíveis em Portugal. 

Não é que não existam, antes que não estão visíveis, talvez porque não haja editoras, nem comerciais nem independentes, nem publicações, nem concursos literários, maioritariamente promovidos por grandes livreiros ou por instituições, que as considerem viáveis.

Assim, colocamo-nos numa posição de questionamento em relação às predileções mercantis: que tipo de estórias é que são reconhecidas, premiadas, publicadas, por que tipo de autores e para servir que ideias - enquanto assumimos uma posição de empoderamento e representatividade perante este universo outro.

Queremos ler estórias sobre relações entre mulheres com os seus vários desfechos possíveis, tantos quanto a variabilidade das vidas, queremos ler os textos, abstratos, surreais, expressionistas, que falam do caleidoscópio e da vertigem, da complexidade e da subtileza, da atração entre mulheres a operar num contexto não só heteronormativo como também androcêntrico.

As estórias refletem e criam cultura, são reflexo do poder e têm um poder desmesurado para criar mudança, com esta convocatória queremos que estas estórias, que têm ficado historicamente à margem, avancem agora para o centro.