• O pouco amor que tivemos (se é que é possível chamar de amor) era um amor fraco, entristecido, daqueles com tão pouca carne que mal preenchem o buraco do dente. Então fiquei muito surpresa quando disseram que ela tinha ficado deprimida quando eu parei de alimentar o relacionamento. Mas isso foi num verão de mais de 20 anos atrás, então façam-me o favor. Mas agora, era como se aquela troca de fluidos esquecível, antiga, insossa, a tivesse dado poderes para enxergar através de mim.

    Açucenas (2024), Paula Groff

  • Digo para mim que evito ver este gigante em que me tornei, mas eu sei que não encaro o meu corpo porque ele é o sintoma de um pensamento antigo. Imagino que sou a minha osteopata, uma tipa mais bonita que a Cássia Eller, que diz que é alquimista do corpo. Com essa conversinha de engate, vai vivendo romances tórridos em série com mulheres que são sempre o amor da sua vida. Invejo-a pela forma como fala da sua liberdade e dos seus consumos de LSD, a que chama “terapia”.

    Insónia (2024), Laura Falésia


  • Quero ser a bicha do William S. Burroughs; A lésbica não mulher da Monique Wittig e a fatalidade que existe dentro da Carson McCullers.

    Isto que se sente tem nome (2023), Cátia Ramos


  • Foi por um fio também que não desisti. Mas foram as minhas companheires, as compas, que me salvaram, e isso nunca muda. As pessoas. Sabemos que este termo evoluiu na subjetividade do que é isso de ser pessoa — nisso englobo todes os seres que se queira inserir nesta categoria. Mas sim, foram as pessoas que me salvaram.

    Corpas, copos e compas (2024), Mean é.t

  • É preciso, antes de mais, compreendermos as linhas de força que insidiosamente nos esmagam, levando-nos a acreditar que não temos direito a existir.

    editorial, as7bonecas, 2023


CLAUDE CAHUN POR TAMARA ALVES, 2022

ESTADO DA ARTE

Se estórias que explorem o desejo feminino, escritas a partir do ponto de vista de uma mulher, são raras na nossa cultura; estórias à volta do desejo entre mulheres, escritas a partir do olhar feminino, são imperceptíveis em Portugal. 

Não é que não existam, antes que não estão visíveis, talvez porque não haja editoras, nem comerciais nem independentes, nem publicações, nem concursos literários, maioritariamente promovidos por grandes livreiros ou por instituições, que as considerem viáveis.

Assim, colocamo-nos numa posição de questionamento em relação às predileções mercantis: que tipo de estórias é que são reconhecidas, premiadas, publicadas, por que tipo de autores e para servir que ideias - enquanto assumimos uma posição de empoderamento e representatividade perante este universo outro.

Queremos ler estórias sobre relações entre mulheres com os seus vários desfechos possíveis, tantos quanto a variabilidade das vidas, queremos ler os textos, abstratos, surreais, expressionistas, que falam do caleidoscópio e da vertigem, da complexidade e da subtileza, da atração entre mulheres a operar num contexto não só heteronormativo como também androcêntrico.

As estórias refletem e criam cultura, são reflexo do poder e têm um poder desmesurado para criar mudança, com esta convocatória queremos que estas estórias, que têm ficado historicamente à margem, avancem agora para o centro.