CLAUDE CAHUN POR TAMARA ALVES, 2022

APELO À IMAGINAÇÃO

Este projeto existe na tensão entre ativismo e literatura.

Procuramos vozes sub-representadas na literatura nacional, de mulheres cis, trans e de pessoas não-bináries e de estórias que explorem mundos e experiências queer, desafiando a perspetiva dominante.

Mas o nosso apelo é à imaginação.

Aqui, a imaginação não funciona como escapismo, mas como uma construção de um imaginário coletivo, experimental e transformador. Precisamos de inventar outro mundo.

Quando se imagina personagens queer, é frequente vê-las esmagadas pela realidade opressiva de um mundo heteronormativo, capitalista e atravessado por múltiplas violências. Embora reconheçamos a importância desse testemunho, o intuito deste projeto é evocar, através da ficção, outras possibilidades. 

Os universos da ficção permitem-nos ir além. 

Com esta convocatória, convidamos-vos a imaginá-los. 

  • “Sem imaginação, como podemos rir, ou somente suportar o absurdo?”

    editorial, as7bonecas, 2025

  • O pouco amor que tivemos (se é que é possível chamar de amor) era um amor fraco, entristecido, daqueles com tão pouca carne que mal preenchem o buraco do dente. Então fiquei muito surpresa quando disseram que ela tinha ficado deprimida quando eu parei de alimentar o relacionamento. Mas isso foi num verão de mais de 20 anos atrás, então façam-me o favor. Mas agora, era como se aquela troca de fluidos esquecível, antiga, insossa, a tivesse dado poderes para enxergar através de mim.

    Açucenas (2024), Paula Groff

  • - Do you want to dip your biscuit in my tea? A enfermeira fica sem saber o que responder, nem como reagir, será que...não, não pode ser, será uma insinuação? A velhota está a atirar-se a ela? Por via das dúvidas, sorri de forma amarela e afasta-se. Margarida coloca um pouco de leite no chá e bebe-o de forma sofisticada. A conversa corre pela enfermaria e por todo o hospital. Há uma velhota britânica sem aparentes sinais de demência que faz insinuações sexuais às enfermeiras. Claro que teria de ser a minha melhor amiga neste inferno de sítio.

    Daisy (2023), Cláudia Zafre

  • Digo para mim que evito ver este gigante em que me tornei, mas eu sei que não encaro o meu corpo porque ele é o sintoma de um pensamento antigo. Imagino que sou a minha osteopata, uma tipa mais bonita que a Cássia Eller, que diz que é alquimista do corpo. Com essa conversinha de engate, vai vivendo romances tórridos em série com mulheres que são sempre o amor da sua vida. Invejo-a pela forma como fala da sua liberdade e dos seus consumos de LSD, a que chama “terapia”.

    Insónia (2024), Laura Falésia

  • Quero ser a bicha do William S. Burroughs; A lésbica não mulher da Monique Wittig e a fatalidade que existe dentro da Carson McCullers.

    Isto que se sente tem nome (2023), Cátia Ramos

  • Foi por um fio também que não desisti. Mas foram as minhas companheires, as compas, que me salvaram, e isso nunca muda. As pessoas. Sabemos que este termo evoluiu na subjetividade do que é isso de ser pessoa — nisso englobo todes os seres que se queira inserir nesta categoria. Mas sim, foram as pessoas que me salvaram.

    Corpas, copos e compas (2024), Mean é.t

  • Tenho 15 anos. E, até agora, vivi sobretudo dentro da minha cabeça. Como se eu fosse só uma cabeça. Desprovida de corpo. Os espelhos, em casa, são todos altos. Tenho sempre de subir às pontas dos pés. Só vejo a minha cabeça. Sou uma rapariga de 15 anos. Tenho cabeça de rapariga. Embora o meu maxilar coubesse com harmonia numa cabeça de rapaz. Um tipo de rapaz. Tenho expressões duras. Olhos grandes, nariz grande. A linha dos meus lábios prossegue um pouco depois do fim dos lábios. A minha mãe gosta de comparar a minha fotografia de 15 anos com a dela. "Somos tão parecidas, vês?" E eu vejo que sim, somos, ela na versão delicada, aquele feminino frágil, que eu também tenho, exatamente ali no centro acústico, que faz disparar um choro convulsivo à primeira nota de um piano.

    Topologia de um beijo (2023), Prudância M.

  • Volta à casa, mas um pensamento a impede de fechar a porta: e se o rouxinol tiver frio e quiser entrar? E se é por isso que vem cantando de madrugada, em frente à sua janela – justamente em frente à sua janela? Não seria melhor deixar a porta aberta, calçar com uma cadeira para que o vento não a feche, abrir as janelas do quarto? Mas está sendo ridícula. A mãe não entraria nem que tivesse asas e, se entrasse, o que lhe diria? Mãe, essa é Cristine, minha namorada?

    O rouxinol, (2024), Juliana Garbayo

  • A cidade, essa estranha criatura de betão e intenção, carrega no seu esqueleto de ferro e na sua pele de asfalto, a marca de quem a sonhou. E quem a sonhou tinha um corpo específico: masculino, branco, heterossexual, capaz.

    O caleidoscópio da vertigem (2025), Helena Ferreira

  • Naquele momento, perguntei-me o que me tornava diferente daqueles que julgavam as mulheres muçulmanas que usavam o hijabe ou a burca. Não tinha motivos para acreditar que ela fosse desaprovar. Nunca na minha vida a ouvira dizer algo minimamente homofóbico ou transfóbico. E nunca diria, porque, para ela, ser odiosa, seja de que forma for, vai contra as suas crenças religiosas. Esta mulher recitava o lema da comunidade ahmadi — Amor por todos, ódio por ninguém — sempre que alguém nos dirigia um comentário islamofóbico na rua, nos centros comerciais ou nas mercearias. Passaram alguns segundos, enquanto me debatia com a ideia de ser finalmente sincere com ela e de lhe dar uma oportunidade para me aceitar. Também compreendi que, se ela decidisse não me aceitar, não tinha assim tanto a perder; nesta altura da minha vida, já não dependia dos meus pais para nada.

    Onze, Sempre Estivemos Aqui (2025), Samra Habib